O Jornalismo Analógico e o Fenômeno Político Digital

11/10/2018

A grande imprensa e as campanhas político-eleitorais, terão que se reinventar 

Nos estertores finais da campanha eleitoral de 2018, ocorre uma evidente constatação: 
O aparato de comunicação analógico, amestrado pelo establishment, sucumbiu ao fenômeno político digital.
Foi um doloroso choque de realidade para o chamado cartel da grande imprensa, senhor de um mercado hoje condenado a desaparecer. Também foi o fim do marketing político tradicional centrado nessa mesma mídia. 
Fiéis serviçais do status quo, organismos da grande mídia usaram os melhores recursos técnicos e humanos para conferir credibilidade à cobertura do processo eleitoral. O aparato de rádio-televisão também hospeda o horário eleitoral gratuito, até então tido e havido como o ápice das campanhas organizadas pelos grandes partidos patrocinados pelo establishment.
No entanto, esses gigantes foram fragorosamente superados em audiência, cobertura e credibilidade, pela ágil, difusa, pulverizada, barata e organicamente articulada mobilização digital da cidadania.


O establishment

O aparato de comunicação da grande imprensa é mantido, patrocinado e suportado economicamente pelo establishment - como é chamado o conjunto de próceres e mantenedores do mecanismo de poder existente no Brasil.
Detentor intelectual dos meios de comunicação com o público, e de forma cartelizada, o aparato de comunicação manteve-se "acima" dos candidatos e suas propostas, "decidindo" o que era "bom" ou "ruim" para seus usuários. 
Esse comportamento arrogante foi adotado pelo cartel no início do processo eleitoral de 2018, para a presidência, os parlamentos da união, chefia executiva e parlamentos dos estados. 
Amestrados pelo establishment, os jornalistas da grande imprensa apostaram na manutenção do status quo, na permanência das velhas lideranças e na superação dos outsiders.

A TV somos nós
A TV somos nós

Deram como certa a vitória da política de alianças dos partidos que monopolizaram o tempo de rádio e televisão, destinados á propaganda eleitoral.

Os analistas políticos desse aparato e a estrutura tradicional de propaganda política, também acreditavam na "desidratação" do "candidato da direita", face á campanha de desconstrução e às denúncias, veiculadas por eles próprios, pelo aparato analógico de comunicação. Nutriam também a ilusão que não haveria governabilidade possível sem alinhamento com uma base parlamentar, esta obviamente oriunda dos partidos de sempre. Pois bem, foi esse sistema de comunicação, analógico e viciado, que sucumbiu, dizimado pela mobilização digital, difusa e livremente articulada, ocorrida na campanha eleitoral de 2018.

O ocaso do jornalismo analógico

A mídia amestrada pelo establishment sempre constituiu uma formidável máquina de guerra. No entanto, nas eleições de 2018, a máquina revelou-se obsoleta. O aparato midiático, composto pelas redes de mídia impressa e radio-televisiva, esta última sedimentada por um regime de concessões, é mantido há tempos pela massa de propaganda estatal e o marketing dos grandes grupos financeiros. No período eleitoral, esse aparato ganha reforço dos institutos de pesquisa. A dança de números contratada suporta ajustes e aproximações, não para informar a tendência do eleitorado mas, sim, para induzi-lo a corresponder à vontade do establishment.A massa de informações é filtrada por editorias e analisada por jornalistas formadores de opinião. Então, será despejada sobre dezenas de milhões de telespectadores, centenas de milhares de radio-ouvintes e dezenas de milhares de leitores, diariamente.No entanto, ainda que suportado por broadcasting, o sistema da grande mídia nacional permanece analógico. Mantém uma produção editorial manufaturada - quase artesanal, que pressupõe fidelização da assistência - expandida aritmeticamente. O que produz, demanda conversão para os meios digitais. O sistema, é fato, alcança o celular do cidadão. Porém, requer dele uma assinatura...

Mobilitação 2013 - foto Marcelo Justo
Mobilitação 2013 - foto Marcelo Justo
Efeito Bolsonaro 2018
Efeito Bolsonaro 2018

A mobilização digital

Não foi uma "invasão" de território, e tão pouco houve disputa por audiência - pois mídias e mensagens em absoluto se assemelharam. Envolto pela soberba, o establishment não atentou, não analisou, não previu e não percebeu o enraizamento e o reflorescer do fenômeno das gigantescas manifestações de 2013. A indignação em estado puro de 2013, serviu de base para alavancar a "raiva" motivadora da radicalização nas eleições de 2018. O choque tecnológico ficou evidenciado pela mobilização virtual. Essa mobilização foi concretizada nas ruas inúmeras vezes. O segredo dessa mobilização virtual é sua aparente invisibilidade. Ela se dá pelas infovias das redes sociais (facebook, twitter), pela internet (websites, notificações de rede e e-mails), e pelas modernas mídias digitais de troca de mensagens (whatsapp e telegram), produzidas, percebidas e recebidas nos tablets, telefones celulares e laptops dos milhões de usuários. Ou seja, independente dos candidatos, partidos e bandeiras de mobilização social de cada candidatura, a campanha digital avança virtualmente sem aparente liderança, de forma livre, transferindo informações, postagens, lives, memes, impressões ao sabor da disponibilidade, empatia, receptividade e humor do usuário, transmissor-receptor, bastando um toque na telinha do celular. Para as organizações postadas á esquerda do establishment, o choque produzido pela mobilização digital foi ainda mais desmoralizante. Os chamados "movimentos sociais organizados" tornaram-se, simplesmente, obsoletos. A capacidade de mobilização e emprego pelo proselitismo nas ruas não se compara á leveza e dinâmica do fenômeno de articulação digital, desprovida de custos físicos e estrutura formal. O fenômeno político digital, por outro lado, ampliou ainda mais a assimetria que caracteriza os chamados "conflitos de quarta geração". Criou uma espécie de movimento de massas orientado, porém organicamente desorganizado. Esse fenômeno gera profundo impacto na própria segurança pública, pois a tradicional Inteligência de Estado não encontra forma de monitorar sem comprimir a liberdade de expressão e invadir a intimidade do cidadão. Um risco efetivo para o Estado de Direito. No campo da judicialização, a assimetria torna as ações da jusburocracia algo próximo do ridículo. De fato, em um mundo onde o número de dispositivos digitais interconectados já suplantou o número de habitantes do planeta, a censura judicial a jornais de papel e canais de televisão concessionados, o "direito de resposta" e a repressão à manipulação de fatos (da mesma forma que a manipulação dos fatos pela grande mídia) tornou-se outra piada.Mas não é o cidadão que perde e, sim, o establishment. No fenômeno digital, por mais que se pretenda distorcer, a informação flui entre os usuários sem que haja controle - e a própria manipulação, cedo ou tarde se revela.A mobilização digital produzida por usuários interconectados em redes sociais e plataformas de comunicação para celulares é, ainda turbinada, sem qualquer filtro, seja diretamente pelos usuários, seja, também, pelos ditos influenciadores digitais e seus seguidores. Trata-se de uma mobilização não segmentada. Pelo contrário, integrada e em conexão permanente, impactando centenas de milhões de indivíduos todo o tempo.

Celular a nova midia
Celular a nova midia

A obsolescência política do establishment

Vídeos, mensagens, memes e "lives" (verdadeiros comícios virtuais), tomaram toda a atenção das centenas de milhões de cidadãos que passam cada vez mais tempo conectados ao telefone celular e menos tempo dedicando atenção à TV, ao rádio e ao jornal impresso. Foi dessa forma que eventos antes tidos como decisivos para uma campanha eleitoral - como o comício partidário ou o debate televisivo, tornaram-se não só obsoletos, como também desinteressantes.Não houve, portanto, qualquer surpresa nas eleições de 2018. Produziu-se, simplesmente, o conhecido impacto da revolução digital no atrasado ambiente político brasileiro. Também tratou-se de mais um capítulo na evolução dos conflitos assimétricos envolvendo interesses difusos, ativismos de toda ordem, neopopulismos e a notória crise do sistema representativo no Estado Democrático Moderno.Parece grego... mas não é. Basta ver a assimetria de meios materiais disponíveis para candidatos como Alckmin (PSDB), Meirelles (MDB) e Haddad (PT), donos de campanhas milionárias, e o resultado pífio alcançado por eles face á destreza da campanha digital e barata, promovida por Jair Bolsonaro.Até mesmo o folclórico Cabo Daciolo, com sua campanha de memes - ao custo de mil reais, superou o sisudo Meirelles em número de votos, tendo este despendido oitenta mil vezes aquela quantia, na mesma eleição.As bancadas renovadas no parlamento nacional reproduziram a mesma assimetria. Candidatos "youtubers", difundidos pelos meios digitais, a baixo custo e alta criatividade, para um público difuso e infinitamente numeroso, demoliram lideranças tradicionais, baseadas no clientelismo e na extração de votos conquistados pelo contato físico em redutos eleitorais definidos. A campanha digital só não foi eficaz nos rincões interioranos e franjas miseráveis das regiões pouco desenvolvidas, mantidas auxiliadas por programas governamentais de transferência de renda e suporte no abastecimento de itens de primeira necessidade. Nessas áreas, a estrutura analógica do establishment constitui ainda o meio e a mensagem. 

Eu não disse?

A terrível frase que sempre atrai o ódio visceral dos que a ouvem, atesta a confirmação de vaticínios ou advertências óbvias para eventos funestos. No entanto, já havia mesmo alertado para o fenômeno, por escrito e em vídeo, ainda em 2013, quando da explosão das manifestações dos idos de junho. O ciberespaço, integrado pela internet das coisas, pelas redes sociais, pela comunicação digitalizada, compreende a comunicação entre os bilhões de seres humanos e também dos próprios dispositivos interconectados a outros dispositivos. Ele vive permanentemente em tráfego - não respeita feriado, horário e situação geográfica. Bolsonaro captou o fenômeno e identificou nele a melhor forma de replicar e impulsionar a onda de descontentamento contra todo o establishment. Fe-lo com maestria, mesmo fora das ruas, devido à convalescença do ferimento sofrido no atentado contra sua vida. Deveremos, após a campanha digital, testemunhar a construção de um governo digital, que aproximará ainda mais os cidadãos interconectados gerando nova forma de comunicação do Estado com seus usuários e a sociedade que politicamente o organizou. Quanto à comunicação deverá sofrer nova onda organizacional, sem prescindir dos jornalistas - cidadãos ocupados em usar, e fazer outros usarem, constantemente, o intelecto, em função da causa da justiça, da liberdade e da verdade.Já o aparato do establishment - este terá que se reinventar, bem como as campanhas e estruturas de comunicação da política neste século. 


Por Antonio Fernando Pinheiro Pedro

Antonio Fernando Pinheiro Pedro é advogado (USP), jornalista e consultor ambiental. Sócio diretor do escritório Pinheiro Pedro Advogados. Integrante do Green Economy Task Force da Câmara de Comércio Internacional, membro do Instituto dos Advogados Brasileiros - IAB. Vice-Presidente da Associação Paulista de Imprensa - API. É Editor- Chefe do Portal Ambiente Legal, do Mural Eletrônico DAZIBAO e responsável pelo blog The Eagle View.