Em busca de equidade racial na indústria da moda italiana

06/03/2019

MILÃO - Aos 26 anos, Edward Buchanan, um afro-americano formado pela Escola Parsons de Design na cidade de Nova York, conseguiu o emprego dos sonhos: ser diretor de design para a Bottega Veneta. "Eu andava pelas fábricas com meus dreadlocks sem falar nada de italiano. Era muito inexperiente", disse, rindo. E ele era recebido, como lembra, com um "desconforto curioso". Era 1996.

Valerio Mezzanotti / NYTNS
Valerio Mezzanotti / NYTNS

Vinte e dois anos depois - hoje com 48 e diretor da própria malharia, a ainda pouco conhecida Sansovino 6, além de ser consultor para grifes de luxo -, ele segue sendo um dos poucos negros trabalhando na indústria italiana de moda. "Sempre fui a única pessoa negra do time de design de todas as grifes para as quais trabalhei ou atuei como consultor", afirmou.

Entretanto, após o personagem Otto Toto, criado para a coleção mais recente da marca Prada, o suéter balaclava da Gucci que remetia à prática racista de blackface e os vídeos estereotipados de Dolce & Gabbana na China que agitaram o mundo da moda, a indústria talvez finalmente acorde para a falta de representatividade racial e compreensão cultural. E Buchanan está se descobrindo um ativista, um papel que não esperava ter. "Muitas marcas aqui não contratam negros. As conversas que tenho tido, e quero ter, sobre esse assunto são superimportantes", declarou.

Com certeza, as coisas estão mudando - pelo menos de alguma maneira.

A Max Mara, onde Buchanan já trabalhou, tem um profissional de design sênior de Serra Leoa que está na casa desde 2000 (a política da empresa proíbe publicar o nome dos membros da equipe de design). Em outubro, Roberto Cavalli, em parceria com a organização sem fins lucrativos Fra Noi, contratou três refugiados da Gâmbia, do Paquistão e de El Salvador para trabalhar no departamento de corte de moldes, no ateliê e no escritório de estilo Just Cavalli.

Lawrence Steele, design de moda afro-americano, diretor criativo associado da Marni Marni e que mora e trabalha em Milão há anos, contou: "Não tive nenhuma dificuldade para conseguir empregos. Eles aconteceram de maneira espontânea e, além disso, as marcas para as quais trabalhei sempre falaram a linguagem da transparência." Ele observou que há muito tempo a Marni tem uma equipe de design multicultural.

Mesmo assim, quando os desfiles do outono começaram em fevereiro deste ano, havia apenas um designer negro no calendário oficial: Stella Jean, ítalo-haitiana radicada em Roma que, em 2011, se tornou a primeira designer negra a ganhar o concurso de talentos da "Vogue" italiana "Who Is On Next" (Quem Será o Próximo).

A Camera Nazionale Della Moda Italiana, a associação nacional da indústria da moda do país, disse não haver estatísticas que analisem a divisão racial dos trabalhadores dentro da indústria da moda na Itália. Contudo, Carlo Capasa, presidente da organização, acredita que seja uma questão de disponibilidade. "Não há muitos designers negros aqui, mas não por um problema de discriminação. Tradicionalmente, a Itália é um país de população extremamente homogênea. Simples assim: não temos uma grande população negra", alegou durante uma entrevista. Um porta-voz do Instituto Nacional de Estatísticas da Itália, responsável pelo censo do país, se negou a compartilhar informações sobre a constituição racial da população.

Hoje em dia, há pessoas negras no sistema mais do que qualificadas para esses trabalhos, mas que não são escolhidas.

EDWARD BUCHANAN

diretor de design

Buchanan não está totalmente convencido: "Há brechas no sistema que impedem criativos de chegar à porta de entrada. São os caça-talentos, o sistema educacional. Não é uma questão de contratar os designers apenas por uma questão de diversidade. Hoje em dia, há pessoas negras no sistema mais do que qualificadas para esses trabalhos, mas que não são escolhidas."

Por isso, ele está lidando com essa realidade da melhor maneira que conhece: com uma coleção. Em 2017, começou o projeto "Check Your Neck" (Dê Uma Olhada em Seu Pescoço), que trouxe três cachecóis de jacquard estampados com os slogans: "Resist" (Resista), "Wake Up for Freedom" (Acorde para a Liberdade), e "We Are All Migrants" (Somos Todos Migrantes). Buchanan explicou: "Após as eleições aqui e nos Estados Unidos, e sendo um homem negro morando na Itália, eu queria questionar o que estava acontecendo."

Agora, ele está tentando aproveitar o mesmo ímpeto para lançar uma coleção-cápsula de roupas femininas. Com dez modelos baseados nos tipos básicos de que mais gosta, incluindo golas falsas, bermuda ciclista, leggings e suéter de gola alta, a coleção de malharia está sendo oferecida em tons que refletem um espectro completo de tons de pele. O objetivo, segundo Buchanan, é ser o Fenty Beauty (linha de maquiagens criada pela cantora Rihanna com o mesmo objetivo) das malhas - porém, sendo essa a indústria do cashmere, as cores têm nomes como costa (creme), vicuña vintage (marrom) e upupa (rosa). "O primeiro conceito que construímos é sobre a cor da nossa pele. Seja você irlandês, jamaicano ou coreano, amo a ideia de vestir algo que se misture à sua pele", argumentou Buchanan.

Para completar, franjas volumosas e jacquards multicoloridos nos suéteres simbolizando a bandeira de países como Alemanha, Estados Unidos e Itália, lugares onde imigrantes normalmente são vistos como forasteiros. "Esses colonos podem já ser de terceira geração, mas ocupam as franjas da sociedade. Quero chamar a atenção para o fato e questioná-lo", esclareceu Buchanan.

fw 15/16 | Courtesy of Sansovino6
fw 15/16 | Courtesy of Sansovino6

Partindo dessa ideia, Stephen Galloway, coreógrafo e consultor criativo radicado em Los Angeles que conhece Buchanan desde 1998, citou o rapper Q-Tip: "As pessoas chegam à verdade mais cedo ou mais tarde." Galloway relaciona a citação à "jornada de Edward como designer. É a hora dele; a hora é agora".

Buchanan teve uma explosão de fama durante o período em que trabalhou na Bottega, quando vestiu a cantora e compositora Lauryn Hill. "Muitas marcas não davam roupas a estrelas do hip-hop e R&B por não as considerar um reflexo válido de consumidores reais. Eu me esforcei para acabar com essa teoria", narrou. Na época, ele lembrou, sua rede de amigos do mundo da moda, como Emil Wilbekin, editor e fundador da revista "Vibe", e Marni Senofonte, estilista radicada em Los Angeles, lhe contava como as marcas luxuosas se recusavam a emprestar produtos e como eles tinham de comprar das lojas para vestir cantores de R&B.

"Tive sorte, pois recebi apoio e segurança de dentro e do alto escalão. Não enfrentei resistência de cima, apesar de as coisas serem diferentes no departamento de marketing", relatou Buchanan, observando que Laura Moltedo, proprietária da Bottega na época, endossava suas ações.

Em 2001, após a Botega ter sido vendida ao Grupo Gucci (hoje Kering), Buchanan saiu e abriu a própria marca de roupas e acessórios, batizada Leflesh, criando em parceria com Manuela Morin, amiga próxima e antiga designer de acessórios da Bottega. Descrita pelo jornalista italiano Angelo Flaccavento como "uma mistura de Era Vitoriana e R&B", a marca ganhou a atenção de Cher e Iman.

fw 15/16 | Courtesy of Sansovino6
fw 15/16 | Courtesy of Sansovino6

Algum tempo depois, Buchanan trocou a Itália por Nova York e passou a prestar consultoria para a linha de roupas Sweetface, de Jennifer Lopez, e para a coleção Sean John, de Sean Combs, encerrando as atividades da Leflesh para se concentrar nesses trabalhos paralelos.

Em 2009, voltou a Milão e, no ano seguinte, abriu a Sansovino 6, linha de cashmere unissex cujo nome é uma homenagem à fábrica que a produz. A cantora e compositora Erykah Badu se apressou para garantir as primeiras peças.

Agora Buchanan tem esperanças de que a indústria da moda comece um novo discurso.

fw 15/16 | Courtesy of Sansovino6
fw 15/16 | Courtesy of Sansovino6

Na metade de fevereiro, a Prada anunciou planos para criar um comitê de aconselhamento para a inclusão liderado pelo artista e ativista Theaster Gates e pela diretora Ava DuVernay. Buchanan descreveu as atitudes como "muito positivas", apesar de ter observado que as marcas "tendem a pedir socorro a grandes celebridades quando precisam lidar com esse tipo de assunto" em vez de pedir conselhos a quem já está no mercado.

"Uma equipe de design diversificada tem o poder de eliminar possíveis erros culturais antes que se desenvolvam. As palavras têm o poder de iniciar a introspecção e as conversas reais, assim como ações imediatas para o futuro", analisou.

Jean, a designer ítalo-haitiana, concordou. "Para ser multicultural não basta colocar uma estampa africana na passarela. A estética é um canal, mas não é o resultado final", asseverou.

Por Kerry Olsen

Fonte: Gauchazh