A rota da madeira

17/09/2019

Existe um país que, entre 2001 e 2018, perdeu 2,17 milhões de hectares de floresta. Neste país, existem 20 rotas através das quais a madeira, extraída nestas matas, passa num estado vizinho, sem pagar impostos e daqui, através um acordo com a União Europeia, viaja para Europa. Aos dois países em questão, no período 2014-2020, foram destinados 400 milhões de euros, como ajuda visada a melhorar o estado de direito. 

Templo Ta Prohm Angkor, em Camboja
Templo Ta Prohm Angkor, em Camboja

Vocês acham que estamos pensando no Brasil? Erraram!

Provavelmente, poucos brasileiros ouviram falar de um tal chamado Huong Leng, como da ONG norte-americana Wildlife Alliance. Esta ONG, com a colaboração de Huang Leng, está monitorando as florestas do Camboja! A desflorestação, que age com a autorização do governo local, acontece para dar espaço a cultivo agrícola, mas, ao mesmo tempo, alimentando o comércio ilegal da madeira. Trata-se, principalmente, das florestas pluviais que se encontram no Leste do país.

Os fazendeiros oferecem aos habitantes locais, que vivem às margens das florestas, somas de dinheiro com a ameaça de expropriação forçada, em caso de recusa. Em teoria, existem sejam áreas protegidas, sejam áreas nas quais o governo autoriza o corte das árvores. Mas isso não impede que, sobretudo durante a noite, aconteça o corte ilegal.

Destruição da floresta, porém os

holofotes apontam, apenas, para o Bolsonaro

O dito Huong Leng, há anos, ilustra com fotos, com GPS, com drones o tamanho do prejuízo provocado por essas atividades ilícitas. O cúmulo consiste no fato que, o governo fala de desflorestação, não de desflorestação! Os fazendeiros responsáveis afirmam que agem dentro dos limites das concessões governativas e acusam os terceiros, de responsáveis. Como desculpa, alegam que o objetivo deles seria a construção de novas escolas nos vilarejos.

Do ponto de vista percentual, a área desmatada, no Camboja, corresponde ao 20% do território nacional! A estima aponta que, em breve, 50% do território cambojano estará desmatado.

A Wildlife Alliance, sequestrou, nos últimos dois anos, 2.300 motosserras, que a ONG define, simplesmente, "armas de destruição de massa". De fato, cada motosserra pode derrubar, pelos menos, um hectare de floresta pluvial.

Para ter uma ideia do tamanho do negócio, basta pensar que uma tora de cerca de dois metros, proveniente de uma floresta protegida pelo governo cambojano, pela Usaid (o programa de ajudas ao desenvolvimento, financiado pelos Estados Unidos) e pela União Europeia, pode ser vendida por US$ 250. Um verdadeiro negócio para os habitantes dos vilarejos.

Porém, para onde passa a madeira, que podemos chamar de ilegal? Leng apontou 20 pontos de saída ilícita da madeira para o país vizinho: o Vietnã. Graças à autorização da UE, visada a facilitar a política de liberalização daquele país, Hanói pode auto certificar a proveniência da madeira exportada para a Europa. Em poucas palavras, o Vietnã recicla e vende aos europeus, como legal, a madeira, ilegal, proveniente da Camboja!

Poderíamos chamar esta operação como lavagem de madeira!

A destruição das florestas cambojanas, porém, já iniciou no período dos khmer-vermelhos, quando Pol Pot se empossou do poder, dando início à monstruosa ditadura comunista, nos anos noventa.

Naturalmente, o estrago provocado pelas atividades ilegais abrange não apenas a flora, mas, igualmente a fauna, com dezenas de espécies animais em perigo de extinção. Porém, os holofotes dos ambientalistas de todo o mundo estão apontando, apenas, o Bolsonaro.

Por Edoardo Pacelli - Jornalista, ex-diretor de pesquisa do CNR (Itália), é editor da revista Italiamiga e Site Italia.

Fonte: Affari Internazionali, 27/8/2019