Brasil pais de escravos Negros e escravos Brancos

No Oeste Novo, até então habitado por índios das etnias kaingang, terena e guarani, com suas vastidões cobertas de matas e um solo de cor vermelha — terra rossa (que acabou em português sendo denominada "terra roxa", um tipo de solo que se revelou fertilíssimo) —, é precisamente nessa área que uma nova mentalidade econômica toma corpo. Os fazendeiros agora querem produzir café de um modo novo, assalariando um trabalhador — mas jamais os negros, mesmo com a perspectiva de que logo seriam libertados da condição escrava —, trabalhador esse capaz de consumir bens com seu salário. E, poderíamos dizer, branco, e não negro, por injunções de ordem simbólica, já que essa mentalidade fazendeira de vanguarda almejava a implantação de uma nova ordem sociopolítica e cultural. As primeiras experiências de assentamento de colonos europeus, alemães, suíços ou italianos vêm dos idos de 1840, por iniciativa de empreendedores como o comendador Vergueiro, por exemplo, sem que lhes faltasse certa aura romântica ou mesmo anarquista. Às vésperas da abolição da escravatura (1888), e um ano após o fim do Império e a proclamação da República (1889), surgem novos líderes políticos, defensores dessa nova ideologia, como o fazendeiro da região de Araras, Martinho Prado Jr., que passará ativamente a promover a imigração italiana, sagazmente percebendo nessa mudança os enormes dividendos econômicos e políticos (como de fato ocorreu, com sua família, nas décadas seguintes8) que esse novo processo viria a proporcionar. 

Leilão de escravos ainda em solo africano, ca. 1870. Foto de autor desconhecido.
Leilão de escravos ainda em solo africano, ca. 1870. Foto de autor desconhecido.

O que esses fazendeiros ilustrados (e muitos de fato estudaram na Europa) acabaram por promover foi uma guinada modernizadora (muito a seu favor) na economia brasileira, plantando a semente do mercado interno. As relações sociais e o modo de produção agrícola irão se alterar, mas os excluídos do processo serão novamente os escravos e seus descendentes, a quem não foi oferecido trabalho assalariado algum. Essa é uma das marcas mais cruéis da sombra social brasileira, cujos efeitos discriminatórios e marginalizadores de milhões de afro-descendentes fazem-se presentes até a atualidade, engendrando uma iniqüidade que até hoje se tem revelado irremissível. A chegada dos imigrantes italianos impregnou-se das forças geradas por energias renovadoras; mas a saída dos escravos das fazendas, e sua dispersão anômica pelo interior como um bando de desprezados da história, era pautada pela energia que rege os estados terminais.

Século XX, registro do Museu Histórico Ernesto Ricciardi.
Século XX, registro do Museu Histórico Ernesto Ricciardi.

Emigração Italiana 

No final do século XIX, após inúmeras guerras em prol da Unificação Italiana, o país se encontrava com a economia debilitada, com epidemias de doenças (malária, cólera, pelagra), superpopulação concentrada nas cidades e desemprego, além de extrema pobreza e altas taxas cobradas pelo governo da Itália. Os italianos queriam fugir da mortificação da pelagra, das taxas sobre o sal e sobre a moagem do milho, o qual era usado para o preparo da polenta que era a alimentação mais barata na época. A burguesia odiava os camponeses pelo seu fervor religioso e os deixavam à própria sorte. Meeiros, colonos, trabalhadores braçais, viviam sob ameaça de perder a casa e o trabalho.

O movimento de migração na Itália começou por volta de 1860, quando os italianos se mudavam para outros países europeus. Em 1870 uma grande maioria começou a emigrar para os EUA, mas posteriormente os governantes americanos começaram a dificultar a imigração para os EUA, devido ao aumento de problemas causados por este contingente de imigrantes. Assim, seu destino passou a ser o Brasil e Argentina.

Estima-se que de 1870 a 1925 mais de 17 milhões de pessoas deixaram a Itália e se encaminharam para diversos países, espalhando-se pelo mundo. Os seus descendentes (que são aproximadamente 60 milhões!) são mais numerosos que a própria população atual da Itália. Só no Brasil, por exemplo, são mais de 25 milhões de descendentes. Mas quando se fala de imigração muitos ainda se perguntam: por que alguém deixaria seu país, sua cidade de origem, e cruzaria o mar rumo a um destino desconhecido e incerto?

A explicação é unânime na maioria dos livros e documentos que tratam deste assunto: a fome. No caso da Itália, a guerra e a unificação deixou um legado de pobreza. O serviço militar era obrigatório por três anos e retirava os homens do grupo familiar, anulando uma importante força de trabalho. A situação da Itália em meados de 1861 era péssima: se a população não morria de fome, padecia com a cólera, a malária e a pelagra.

No Vêneto, região localizada no norte da Itália e de economia tradicionalmente agrícola, os problemas eram muitos. Em 1882 um inverno muito rigoroso destruiu a produção das videiras e da forragem (necessário para a alimentação de animais nos países em que há neve) e nos anos seguintes a seca se instala e aumenta ainda mais o desespero da população já que torna a produção de alimentos quase que inviável. Taxas abusivas cobradas sobre o sal e sobre o milho com o qual se fazia a polenta - principal alimento e o mais barato da época - também castigava aqueles que tinham quase nada.

Correlação histórica com o Brasil

Se na Itália a situação andava de mal a pior, no Brasil, a economia experimentava um momento de expansão ocasionado pelo crescimento do comércio internacional de café. Mas, à medida que os movimentos abolicionistas tomavam corpo e tornavam-se mais fortes, cresciam também as preocupações com a manutenção das lavouras daquele precioso grão, já que o Brasil era totalmente dependente da mão-de-obra escrava. Neste período iniciam-se as discussões sobre a vinda de imigrantes para o Brasil e, a partir de 1870, com a introdução da mão-de-obra assalariada, a imigração, que antes era apenas uma opção, torna-se uma necessidade.A proibição do tráfico de escravos (1850), a Lei do Ventre Livre e a Lei dos Sexagenários (1885) culminaram com a abolição da escravatura (1888) e provocaram a criação de uma política de incentivo à imigração.

A autoridade para trazer imigrantes, antes sob controle do Governo Imperial, é delegada aos estados, à época chamados de províncias. A província de São Paulo, por exemplo, estabeleceu sua própria política de imigração. Os fazendeiros paulistas uniram-se e fundaram, em 1886, a Sociedade Promotora da Imigração, que se tornou responsável, pelo incentivo da vinda de imigrantes da Europa e da Ásia. Para isto, foi feita uma propaganda maciça, onde o Brasil era mostrado como um paraíso, uma terra de possibilidades.

Os italianos desprezados pela Itália acharam uma nova pátria no Brasil, substituindo os escravos nas lavouras, mas os negros finalmente libertos da escravidão não acharam pátria em lugar nenhum.

Essa foi a sincronicidade histórica ocorrida entre os processos sociais dos dois países: evidentemente não são causadores um do outro, mas um "resolve" o outro. A compilação de tabelas de entrada de imigrantes revela uma curva ascendente a partir de 1870 até o fim do século, sendo 1895 o ano de pico (Alvim, 1986). Os avós de muitos brasileiros de minha faixa etária embarcaram no porto de Gênova (ou de Nápoles, em menor número) e desembarcaram em Santos (meu bisavô montou uma pensão na zona do cais para abrigar compatriotas, entre os quais, alguns anos depois, seus dois filhos, que viajaram sozinhos com pouco mais de dez anos) aproximadamente nessa época. Os viajantes que viajavam com o bilhete pago pelo governo de São Paulo na chamada "imigração subvencionada" desembarcavam em Santos, tomavam um trem especial, fechado, e desembarcavam na estação da Hospedaria dos Imigrantes construída pelo governo paulista em 1888 para esse fim, na Rua Visconde de Paranaíba, Brás — que logo se tornaria um verdadeiro bairro italiano na capital paulista.

Em seu alentado Emigrazione Italiana nell'America del Sud, o pesquisador italiano Antonio Franceschini descreve —a partir de fontes oficiais, obtidas nos consulados —como era esse percurso do imigrante recém-chegado:

Apenas desembarcados, os imigrantes são recolhidos na Hospedaria dos Imigrantes, grandes alojamentos divididos em cubículos e grandes dormitórios coletivos, capazes de abrigar por vezes setecentas pessoas, onde se amontoam centenas e milhares de famílias de colonos. Os dormitórios com bancos servem de refeitório, aqueles com esteiras diretamente sobre o solo (não imune de parasitas) servem de dormitório. Geralmente o imigrante pode solicitar à autoridade brasileira ser colocado como meeiro ou diarista junto às feitorias, ditas fazendas, para cultivar açúcar ou café; ou pode solicitar um lote de terreno para cultivar. Os imigrantes que pediram para serem colocados como meeiros ou assalariados nos cafezais são reagrupados e apresentados aos fazendeiros admitidos na hospedaria. Estes selecionam as famílias ou colonos de aparência mais robusta, fazem as ofertas, apresentam as condições (ajustes) e a paga, conforme o gênero de trabalho, pagamento cujo valor o imigrante mal conhece, embora o contrato venha traduzido verbalmente pelo intérprete (nem sempre confiável), e freqüentemente fazem também a apresentação do pão que será distribuído nas respectivas fazendas. O colono negocia com o fazendeiro, sem garantia alguma de honestidade e solvibilidade de quem lhe oferece trabalho, e se alista sob o comando deste: apenas colocado, cessa qualquer obrigação por parte do Estado. 

(Franeschini, 1908, p.626-7, apud Franzina, 1994, p.136-7)